é dia de festa na rua!

Dia Sem Carro é dia de festa, e o 22 de setembro reuniu em São Paulo seis centenas de pessoas a celebrar o espaço público, tomar a cidade de volta e vivê-la, de fato, de perto.

Plena, a praça do/a ciclista transbordava de alegria e empolgação, todo tipo de gente ali, toda sorte de encontros, de encantos, e sementes lançadas…

não há palavra capaz de exprimir.

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tudo à minha volta são reclames. desejos vãos, e só.

– “Putz, até nas catracas”, pensei. Mais uma surrealidade cotidiana: tinha que ver uma propaganda de chocolates nestlé quase inevitavelmente para pegar o metrô. É (mais) uma “taxa extra” pra ter o direito de usar o serviço (de transporte público). Cada dia fica mais difícil escapar, da publicidade e da “naturalização” de sua existência em tão larga escala.

Remexendo bibliografia da época de unb, dei de cara com um texto interessantíssimo do Jean Baudrillard, de 1968, que tratava exatamente disto, ah, que maravilha. Ou talvez não, haha…

Baudrillard começa: se desde a década de 40 já se sabe que uma publicidade tende a anular-se diante de outra de produto similar, ou por seus excessos, em termos de persuasão; e todo mundo sabe que propaganda está mentindo; porque, diabos, se gasta tanto com publicidade? Porque ela invade, implacável, os espaços públicos – cores e formas artificiais, mentiras vãs?

(porque não posso escolher NÃO VER imagens gritando e se oferecendo por todos os lados?, pergunto eu.)

É claro que temos mecanismos de resistência à publicidade, admite o autor: “a injunção e a persuasão levantam todas as espécies de contra-motivações e de resistências (racionais ou irracionais: reação à passividade, não querer ser “possuído”, reação à ênfase, à repetição do discurso, etc.), em suma, o discurso publicitário dissuade ao mesmo tempo que persuade e daí parece que o consumidor é, senão imunizado, pelo menos um usuário bastante livre da mensagem publicitária”.

Mas “a função explícita da publicidade não nos deve enganar”, logo adverte. Se o imperativo publicitário não nos persuade quanto a uma marca específica, seu indicativo tem função primordial para “melhor impor a ordem real de produção e exploração”. As marcas, as imagens, são álibis no processo no qual se desenvolve uma “confusa operação de integração”, da pessoa à sociedade, enfim.

Assim, se resistimos, por um lado, ao imperativo publicitário, por outro aceitamos passivamente sua existência, como produto (também a ser consumido) e como, pode-se dizer, “modelo de realidade”, “evidência” de uma cultura tal, artificial, claro e, ao contrário do que alardeia, para muito poucos.

“É nesta medida que “acreditamos” nela; o que nela consumimos é o luxo de uma sociedade que se dá a ver como instância distribuidora de bens que se “ultrapassa” numa cultura. Recebemos ao mesmo tempo instância [a publicidade em si] e imagem”.

Funciona aí a lógica da fábula e da adesão, que “regride” o consumidor à infância. Baudrillard cita o Papai Noel para explicar: trata-se de uma fábula pra racionalizar e preservar na segunda infância a “relação miraculosa de gratificação pelos pais (mais precisamente pela mãe) que caracterizara a primeira infância”. A criança “se comporta” pra ganhar presentes no Natal, e os pais sustentam a estória. De maneira similar, “a publicidade serve para racionalizar a compra que, de todo modo, precede ou ultrapassa os motivos racionais. Sem acreditar neste produto, acredito, porém, na publicidade que quer me fazer crer”.

Ela adquire um caráter maternal, e nos entregamos diante de sua aparência. Somos convencidos/as de que apenas nos informam do que é bom pra nós e nos dão a oportunidade de escolher este sim e aquele não: “O indivíduo é sensível à temática latente de proteção e de gratificação, ao cuidado que “se” tem de solicitá-lo e persuadi-lo, ao signo, ilegível à consciência, de em alguma parte existir uma instância (no caso, social, que remete diretamente à imagem materna) que aceita informá-lo sobre seus próprios desejos, adverti-los e racionalizá-los a seus próprios olhos”.

Acaba que este jogo se demonstra interessante para as duas partes, e, portanto, não há resistência. Pelo contrário, quer-se fazer parte deste mundo maravilhoso (ainda que de imagens vazias).

 

Gratificação e repressão

Assim, diz Baudrillard, devemos ficar de olhos abertos ao verdadeiro imperativo da publicidade: descontextualizado, fora do processo histórico, o produto torna-se mero objeto, imagem, de modo a manter longe qualquer risco de subversão desta “miraculosa integração: este objeto, o senhor não o comprou, o senhor sim emitiu o seu desejo e todos os engenheiros, técnicos, etc. com ele o gratificaram”.

A dissociação entre trabalho e produto do trabalho, típica da sociedade industrial (assim como aquela entre o luxo – de poucos – e a exploração – de muitos), se completa através da publicidade. “Ao mesmo tempo que dissocia, no mesmo indivíduo, produtor e consumidor, graças à abstração de um sistema muito diferenciado de objetos, a publicidade se afana, em sentido inverso, em recriar uma confusão infantil entre o objeto e o desejo do objeto, em retornar o consumidor ao estágio em que a criança confunde sua mãe com o que ela lhe dá”.

Maravilha, não?… O mundo mágico da publicidade esconde a ordem real de produção e exploração por detrás das imagens, cada dia mais lindas e irreais. “Quando a publicidade em substância lhe propõe: “a sociedade adapta-se totalmente a você, integre-se totalmente nela”, é claro que a reciprocidade é falsificada: é uma instância imaginária que se adapta a você, enquanto que, em troca, você se adapta a uma ordem bem real. Através da poltrona “que se adapta às formas do seu corpo”, você esposa e se responsabiliza por toda a ordem técnica e política da sociedade. A sociedade se faz maternal para que melhor se preserve uma ordem de coerção”.

A idéia é essa: discurso único, todos/as “desejam” as mesmas coisas (com sua devida segmentação, pra dar aquela impressão de “eu escolhi”, “foi feito pra mim”). As ideologias, a crítica, são coisa de gente chata e mal-humorada que só sabe reclamar da vida – ou incompetente para “vencer”. (Se você for mulher, inda corre o sério risco de ouvir que é “mal-amada”).

Melhor pra quem está por cima: “enquanto que a integração moral e política não se exercia sem problemas (precisava lançar mão de repressão aberta), as novas técnicas economizam a repressão: o consumidor interioriza, no próprio movimento do consumo, as instâncias sociais e suas normas”.

A ponto de achar bacana fazer “publicidade gratuita” para marcas de roupas, artigos esportivos, etc., estampando suas logos enooormes por aí, como símbolo de algum status… E não compreender, no meio de tanta fragmentação, que desigualdade social, consumismo individualista, destruição ambiental, violência e degradação urbana estão inexoravelmente interligados.

 

Imagens, simulacros

É preciso perceber a relevância do papel das imagens e sua leitura no processo. Embora álibis, de inocentes nada têm. Não é difícil reparar que informação sobre o produto, mesmo, as propagandas não oferecem. Nos falam antes de objetos, muito pouco (ou nada) elas dão de informações práticas. São legendas, estão aí para ser lidas, e “remetem aos objetos reais como a um mundo ausente”, de fantasia. São, portanto, simulacros: já perderam seu referencial de realidade.

Nas imagens, o sanduíche, a roupa, a mulher, são “melhores”, mais “bonitos” e claro, desejáveis que na vida real. “A imagem cria um vazio, visa a uma ausência. Por isso é “evocadora”. Mas é um subterfúgio. (…) Ela engana, sua função é mostrar e enganar. O olhar é presunção de contato, a imagem e sua leitura são presunção de posse. A publicidade assim não oferece nem uma satisfação alucinatória, nem uma mediação prática para o mundo: a atitude que suscita é a de veleidade enganada – empresa inacabada, surgir contínuo, auroras de objetos, auroras de desejos.”

Compramos uma imagem, mas recebemos um produto que não é aquilo tudo, afinal… daí surge a frustração. No entanto, a propaganda continua dizendo (pra nós e pr’aqueles a quem devemos fazer inveja) que, sim, você é isto ou aquilo por TER tal produto. E logo surge outro, e outro, e outro, “melhor ainda”, oh, como posso viver sem isso?

“Não é mecanicamente que a publicidade veicula os valores desta sociedade, é, mais sutilmente, por sua função ambígua de presunção – algo entre a posse e a ausência de posse, ao mesmo tempo designação e prova de ausência – que o signo publicitário “faz passar” a ordem social em sua dupla determinação de gratificação e repressão”. “As duas vertentes inseparáveis da integração”, nas palavras Baudrillard.

É tudo tão natural: nós merecemos tal produto por nossos esforços em manter a “máquina” funcionando como tal. Ah, não pode comprar? Então você não está cumprindo com o seu dever! Ora, ora, mas sempre está em tempo! TRABALHE MAIS! Ou ainda: FAÇA DÍVIDAS! A escravidão moderna tem gosto de quero mais.

“Profusão de liberdade, contudo imaginária, contínua orgia mental, contudo orquestrada, regressão dirigida em que todas as perversidades são resolvidas em favor da ordem: se, na sociedade de consumo, a gratificação é imensa, a repressão também é enorme; recebemo-las conjuntamente na imagem e no discurso publicitários, que fazem o princípio repressivo da realidade atuar no próprio princípio do prazer”.

Passaram-se 40 anos da publicação deste texto. O próprio Baudrillard aprofundou os conceitos esboçados aqui, a certo ponto deixou de ser marxista pra se dizer “independente”, se é que isso é possível. E a análise, continua atual…

E viva a publicidade brasileira, uma das melhores do mundo!

Será que é porque ela é auto-regulamentada?

E, como para as grandes corporações de “notícias”, regulamentação externa é censura?

 

mais sobre o Baudrillard aqui e aqui.

mais sobre a publicidade: panóptico.

referências:

Baudrillard, Jean. “Significação na Publicidade”, in Teoria da Cultura de Massa, Luiz Costa Lima (org.), 1969.

título retirado de versos de “Mundo dos Negócios”, do Zeca Baleiro, em PetShopMundoCão, 2002.

quadrinhos dos Malvados do André Dahmer.

 

massa crítica paulistana nesta sexta (30)!!!

bicicletada novembro

.::. Bicicletada .::. Massa Crítica em São Paulo .::.

:. sexta-feira (30/11)

:. concentração lúdico-educativa: 18h / pedal para humanizar o trânsito: 19h30

:. Praça do Ciclista: av. Paulista, alt. do 2440 (quase na Consolação)

: . : . : . www.bicicletada.org

: . : . : . relatos, fotos e vídeos

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: . : . : . lista de discussão (cadastramento)

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: . : . : . massa crítica – wikipedia

pelos muros mundo afora

Não se sabe quem é (ou são) Banksy. O mercado de celebridades, sedento, especula que seja um rapaz de Bristol (UK), 30 e poucos anos e aposta num nome, que não vem ao caso. Parece ser difícil, para alguns, lidar com uma profusão imagética tão provocativa e sensível espalhada pelos muros da(s) cidade(s), que invade museus e até zoológicos* (!)… não há um rosto a ser apropriado, replicado à exaustão…

Reza a lenda que os primeiros graffitis assinados por Banksy datam de 2001, em Bristol. Sua técnica? Em um dos 3 livros auto-publicados recheados de fotos de seus graffitis, o moço revela que teve uma péssima experiência com a polícia londrina e logo percebeu que precisava ser mais veloz: daí, o stencil.

As imagens de todo tamanho interagem com a cidade e seus moradores, escancaram contradições e hipocrisias, desanuviam os olhares. Simples e direto – sem falar no aguçado senso de humor – ele mira do consumismo à guerra, da destruição ambiental à opressão em nome da “liberdade”, da fome aos gordinhos subnutridos. Sabe que tudo está interligado.

A cidade, ocupada por inúmeras “bombas mentais”, dialoga com quem passa, provoca, por vezes clama que façamos o mesmo: resgatemos este espaço público, coletivo, de lazer e reivindicação. Nossas cidades encontram-se degradadas, excludentes, retalhadas em grades, muros e vidros fechados, abarrotadas de máquinas a motor que nem tanto andam, nem deixam respirar.

E a grande questão que se nos coloca é: não “é assim mesmo”. Não tem que ser. Sim, claro, há outras possibilidades e explicações e maneiras de ser e atuar. É preciso fazê-las ver e ouvir por aí. Mas, se os meios de comunicação e expressão “tradicionais” ignoram tais mensagens, convenhamos, deve haver poucos lugares melhores para elas que os mesmos muros erigidos por toda a cidade para separar e excluir…

“Vândalo!”, esbravejam alguns. “Genial!”, riem-se outros. Para o desespero daqueles, muitos dos graffitis de Banksy conquistam apoio popular e, não raro, geram mobilização para que a tinta branca e higiênica não os censure.

O campo de batalha de Banksy é amplo. O que começou como brincadeira rendeu toda uma série de “obras-primas vandalizadas”, e, pra num ficar barato, inseridas em alguns dos mais importantes museus do mundo. Muitas passaram despercebidas por dias… Tudo devidamente registrado em vídeo, disponível no sítio http://www.banksy.co.uk. Em alguns casos, como do Tate Museum de Londres, as obras foram incorporadas ao acervo. Terá saído o tiro pela culatra?

É possível, sim, encontrar (e comprar a preços módicos) “Banksys” em galerias alternativas, em suas poucas exposições relâmpago. Mas só se você não tiver problemas em dividir a sala com duas centenas de ratos vivos e soltos (rola uma identificação especial com estes bichos subterrâneos, hehe). Ah, claro, as famosas casas de leilão britânicas conseguem fazer um dinheiro extra às suas custas. “Não acredito que vocês, seus idiotas, ainda comprem esta merda”, respondeu na capa de seu sítio.

Não ter um rosto, como Banksy, a mim demonstra coerência. Ficam as imagens que realmente interessam. Afinal, imagens, idéias e atitudes podem ser muito mais perigosas que as armas de fogo.

para saber e ver mais:

www.banksy.co.uk

www.aots.co.uk

(todas as imagens foram publicadas originalmente nestes endereços)

*tudo começou no zoo de Londres. o cara invadiu a área dos elefantes e grafitou num balão tipo pensamento de quadrinhos:

“eu quero sair daqui. este lugar é muito frio. cheira mal. chato, chato, chato”

(estas duas) são do muro que Israel insiste em erguer na cisjordânia (Palestina).



fazendo a cabeça…

“Tenho lido Whitman, sabe o que ele diz, Cheer up slaves, and horrify foreign despots, ele quer dizer que a atitude para o Bardo, o bardo zen-lunático dos antigos caminhos do deserto, vê a coisa toda como um mundo cheio de andarilhos de mochilas nas costas, vagabundos do dharma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de tv, carros, pelo menos os carros novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorantes e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana, todos eles aprisionados em um sistema de trabalho, produção, consumo, trabalho, produção, consumo, tenho a visão de uma grande revolução de mochilas, milhares ou até mesmo milhões de jovens americanos vagando por aí com mochilas nas costas, subindo montanhas pra rezar, fazendo crianças rirem e deixando os velhos contentes, deixando meninas alegres e moças ainda mais alegres, todos esses zen-lunáticos que ficam aí escrevendo poemas que aparecem na cabeça sem razão nenhuma e também por serem gentis e também por atos estranhos inesperados vivem proporcionando visões de liberdade para todo mundo e todas as criaturas vivas”

Os vagabundos iluminados, Jack Kerouac, 1958.

 

“Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.

Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.

O último trovador morreu em 1914.

Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

 

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.

Se quer fumar um charuto aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem-fio.

Não precisa estômago para digestão.

 

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.

Mas até lá, felizmente, estarei morto.

 

Os homens não melhoram e matam-se como percevejos.

Os percevejos heróicos renascem.

 

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)”

O Sobrevivente. Carlos Drummond de Andrade, 1930

 

“abastecer um aparelho produtivo sem ao mesmo tempo modificá-lo, na medida do possível, seria um procedimento altamente questionável mesmo que os materiais fornecidos tivessem uma aparência revolucionária. Sabemos, e isso foi abundantemente demonstrado nos últimos dez anos, na Alemanha, que o aparelho burguês de produção e publicação pode assimilar uma surpreendente quantidade de temas revolucionários, até mesmo propagá-los, sem colocar seriamente em risco sua própria existência e a existência das classes que o controlam. Isso continuará sendo verdade enquanto esse aparelho for abastecido por escritores rotineiros, ainda que socialistas.

(…)

Pense-se no dadaísmo. A força revolucionária do dadaísmo estava em sua capacidade de submeter a arte à prova da autenticidade. Os autores compunham naturezas-mortas com o auxílio de bilhetes, carretéis, pontas de cigarro, aos quais se associavam elementos pictóricos. O conjunto era posto numa moldura. O objeto era então exposto ao público: vejam, a moldura faz explodir o tempo; o menor fragmento autêntico da vida diária diz mais que a pintura. Do mesmo modo, a impressão digital ensangüentada de um assassino, na página de um livro, diz mais que o texto. A fotomontagem preservou muitos desses conteúdos revolucionários. Basta pensar nos trabalhos de John Heartfield, cuja técnica transformou as capas de livros em instrumentos políticos. Mas acompanhemos um pouco mais longe a trajetória da fotografia. Que vemos? Ela se torna cada vez mais matizada, cada vez mais moderna, e o resultado é que ela não pode mais fotografar cortiços ou montes de lixo sem transfigura-los. Ela não pode dizer, de uma barragem ou de uma fábrica de cabos, outra coisa senão: o mundo é belo. Este é o título do conhecido livro de imagens de Renger-Patsch, que representa a fotografia da “Nova Objetividade” em seu apogeu. Em outras palavras, ela conseguiu transformar a própria miséria em objeto de fruição, ao captá-la segundo os modismos mais aperfeiçoados. Porque, se uma das funções econômicas da fotografia é alimentar as massas com certos conteúdos que antes ela estava proibida de consumir – a primavera, personalidades iminentes, países estrangeiros – através de uma elaboração baseada na moda, uma de suas funções políticas é a de renovar, de dentro, o mundo como ele é – em outras palavras, segundo os critérios da moda.”

O autor como produtor. Walter Benjamin, 1934.

 

“Se o conteúdo da mídia radical alternativa sugere que a estrutura econômica ou política necessita urgentemente de mudanças, embora seja bem claro que, no presente, tais mudanças são inimagináveis, então o papel dessa mídia é manter viva a visão de como as coisas poderiam ser, até um momento na história em que sejam, de fato, exeqüíveis”

Mídia Radical: Rebeldia nas Comunicações e Movimentos Sociais. John Downing, 2001.

 

“Uma nova força humana, que a estrutura existente não poderá dominar, cresce dia a dia com o irresistível desenvolvimento técnico e a insatisfação de seus usos possíveis em nossa vida social carente de sentido.

(…)

Na sociedade hoje dominante, que produz massivamente tristes pseudo-jogos da não-participação, uma atividade artística verdadeira é forçosamente classificada no campo da criminalidade. É semiclandestina. Surge na forma de escândalo.

(…)

propomos uma organização autônoma dos produtores da nova cultura, independentes das organizações políticas e sindicais que existem neste momento, pois questionamos a capacidade delas de organizar outra coisa que a manutenção do que existe.

(…)

Quais deverão ser os principais caracteres da nova cultura e como ela se compararia com a arte antiga?

Contra o espetáculo reinante, a cultura situacionista realizada introduz a participação total.

Contra a arte conservada, é um organização do momento vivido diretamente.

Contra a arte parcelar, será uma prática global que se dirija ao mesmo tempo sobre todos os elementos utilizados. Tende naturalmente a uma produção coletiva e, sem dúvida, anônima (pelo menos na medida em que, ao não estarem as obras armazenadas como mercadorias, tal cultura não estará dominada pela necessidade de deixar traços). Suas experiências se propõem, como mínimo, uma revolução do comportamento e um urbanismo unitário, dinâmico, suscetível de estender-se ao planeta inteiro; e de ser prolongado seguidamente a todos os planetas habitáveis.

Contra a arte unilateral, a cultura situacionista será uma arte do diálogo, uma arte da interação. Os artistas – com toda a cultura visível – chegaram a estar completamente separados da sociedade, do mesmo modo que estão separados entre si pela concorrência. Mas antes inclusive deste corredor sem saída do capitalismo, a arte era essencialmente unilateral, sem resposta. Superará esta era fechada do primitivismo por uma comunicação completa.

Ao ser, em um estágio avançado, todo mundo artista, isto é, inseparavelmente produtor-consumidor de uma criação cultural, se assistirá a dissolução rápida do critério linear de novidade. Ao se tornar todo mundo, por assim dizer, situacionista, se verá a uma inflação multidimensional de tendências, de experiências, de “escolas” radicalmente diferentes e isto não já sucessivamente, mas simultaneamente.

Inauguramos agora o que será, historicamente, o últimos dos ofícios. O papel de situacionista, de amador-profissional, de anti-especialista, é ainda uma especialização até o momento da abundância econômica e mental no qual todo mundo se tornará “artista”, num sentido que os artistas não alcançaram: a construção da própria vida. Entretanto, o último ofício da história é tão próximo da sociedade sem divisão permanente do trabalho, que quando aparece, seu estado de ofício foi negado.”

Manifesto Situacionista. Internationalle Situationniste nº 4, 1960. na íntegra: Biblioteca Virtual Revolucionária