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#ocupeamídia 2013

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a pedalada pelada chegou pra ficar

“foi uma puta experiência!”, concordávamos algumas meninas, horas depois da primeira pedalada pelada de São Paulo.

sim, em múltiplos sentidos.

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renata falzoni, linda!

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o assédio da “grande mídia” foi lastimável. desrespeito, insinuações as mais grosseiras, especialmente com as meninas.

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mas entre nós, ciclistas, o clima era outro. pintamos os corpos uns dos outros, frases, desenhos, de protesto, bem-humorados, pungentes.

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e foi só sairmos pedalando (desviando dos “obstáculos”) que muita gente ficou à vontade pra pedalar pelado/a pela av. Paulista!

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claro, hipocrisia reinante, a polícia interviu truculenta, com direito a chute no saco, gás de pimenta e cassetetes. e levou um de nós, preso. mudamos de rumo: lá, na delegacia, a “arma” bicicleta era era ameaça à altura de metralhadoras…

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“ô seu delegado, libera o pelado!!!”

“eu nasci pelado/a!!!”

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algumas horas depois, o André foi solto. aguardemos os desdobramentos.

putz, uma experiência. acho que estamos cada dia melhores.

ah, aqui ou aqui tem mais fotos .

republico aqui a nossa declaração sobre o “I world naked bike ride São Paulo“.

Declaração dos participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo

Motivações

A I Pedalada Pelada de São Paulo, ou World Naked Bike Ride (WNBR), ocorreu no dia 14 de junho de 2008. Esta foi a primeira edição do evento realizada no Brasil, nos mesmos moldes das ações que acontecem em diversas cidades do mundo com o apoio da população em geral e do poder público.

Nus é como nos sentimos por ter que disputar espaço nas ruas de São Paulo, em meio à violência gerada pelo stress dos motoristas parados em congestionamentos, confinados em máquinas poluentes de vidros escuros. Diariamente essa situação coloca em risco a vida de ciclistas, de pedestres e até de outros motoristas.

Pelados, os ciclistas pretendem chamar a atenção para a exposição indecente à poluição dos carros, para a morte dos espaços públicos tomados por esses veículos e principalmente, para sua fragilidade diante das poderosas máquinas motorizadas, muitas vezes guiadas por pessoas agressivas que não respeitam a bicicleta como o veículo que é, previsto no artigo 96 do Código de Trânsito Brasileiro.

O CTB ainda prevê que, na ausência de local específico para o deslocamento, a bicicleta deve ocupar a faixa da direita da via com preferência sobre os veículos automotores (artigo 58 ) e obriga os veículos a guardarem uma distância lateral de um metro e meio ao ultrapassarem uma bicicleta (artigo 201).

Mas a maioria dos motoristas desconhece ou simplesmente desrespeita essas regras, e se recusa a compartilhar as ruas com os ciclistas. E isto acontece com a conivência do poder público, que não pune as infrações cometidas por esses motoristas contra nós.

Somos constantemente ignorados, somente nus somos vistos?

A concentração na praça e o assédio da mídia

Na Pedalada Pelada cada ciclista poderia participar vestido (ou não) da maneira como se sentisse mais confortável. O lema era “tão nu quanto você ousar”. A nudez nunca foi uma imposição nem uma obrigatoriedade, mas a expectativa gerada durante a semana levou à concentração na Praça do Ciclista um número enorme de curiosos, dezenas de policiais, jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos da grande imprensa.

Mais de quatrocentas pessoas estavam lá para pedalar. Os demais queriam ver e registrar a nudez prometida. Especialmente a nudez feminina. Foi Renata Falzoni, ciclista de longa data e avó, quem ousou primeiro e logo na largada da pedalada ficou completamente nua.

Como ela, outras mulheres tiveram que corajosamente suportar o assédio invasivo de muitos “jornalistas”, ávidos por erotizar e tornar públicos seus corpos em busca de audiência. As câmeras saltaram sobre elas, acompanhadas muitas vezes por comentários machistas de conotação sexual. Esse comportamento lamentável fez com que muitas deixassem de se despir.

No meio da confusão protagonizada pela grande mídia, ciclistas foram pintando os corpos uns dos outros com tintas coloridas. Frases divertidas ou de protesto, desenhos surgindo na pele, todos se enfeitavam para a pedalada, e para trazer um pouco de alegria para a cidade cinza coberta de asfalto.

Celebração da nudez não sexualizada e não comercializada. Liberdade de expressão e manifestação.

Iniciada a pedalada na Avenida Paulista, à medida que os ciclistas se distanciavam da praça foram tomando coragem de expor mais seus corpos. Seguindo o lema naturista, puderam celebrar sua nudez não sexualizada e não comercializada, muito diferente da exposição sexual dos corpos padronizados tão comum nas emissoras de TV e revistas.

Centenas de pessoas puderam expor por alguns instantes seus corpos “imperfeitos”, gorduras a mais ou a menos, celulites e estrias livres da ditadura estética vigente que causa distúrbios alimentares, complexos e depressões.

A alegria desse momento foi tão contagiante que provocou aplausos da “platéia”. Pessoas que caminhavam pelas ruas, passavam dentro de ônibus ou automóveis, riam, assobiavam, apontavam a massa de pelados que pedalava. Câmeras e mais câmeras de celulares foram apontadas para a avenida.

E a prova máxima de civilidade foi dada pelos próprios ciclistas nus (ou seminus), que abriram mão de assédios e piadas de mau gosto para compartilhar respeitosamente um momento de pura liberdade de expressão e manifestação.

Criminalização da nudez, neutralização da massa e violência policial

Infelizmente, aprendemos com nossa ação que a nudez que se manifesta livremente a favor da vida é criminalizada, enquanto a nudez explorada, sexualizada e comercializada nos carnavais, novelas e revistas é permitida.

Durante o trajeto, um comandante da polícia militar deixou claro a quem ele pensou ser o organizador da ação, que o nu frontal não seria tolerado, somente corpos pintados como no carnaval. Apesar das dezenas de ciclistas completamente nus, André Pasqualini acabou sendo escolhido como o “bode expiatório” e foi levado nu para a delegacia, como forma de neutralizar nossa ação.

Alguns ciclistas tentaram se manifestar contra a prisão e foram agredidos com pontapés e gás de pimenta, como mostra diversas fotos e vídeos publicados pela grande mídia (matéria no Estadão) e pela mídia independente. Como sempre é feito em manifestações ciclo ativistas, os ciclistas ergueram suas bicicletas no ar. Foram absurdamente acusados de usá-las como arma.

O comandante da operação declarou diante das câmeras que fez o que estava planejado, prendeu o “líder” da ação para acabar com a manifestação. A lógica estava errada, já que não existem líderes ou organizadores da Pedalada dos Pelados, mas a tática deu certo, porque seja lá quem tivesse sido detido, nós não deixaríamos de apoiá-lo.

Com a prisão de um dos seus participantes, a massa perdeu um pouco em alegria e parte dos pelados cobriram ao menos suas genitálias e seguiram escoltados pela CET rumo ao 78º DP na Rua Estados Unidos. A festa continuou ali, aos gritos de “Ô seu delegado, libera o pelado!”.

A massa segue feliz e orgulhosa

Confirmado que o participante preso seria liberado, a massa seguiu de volta a Praça do Ciclista. Cruzou a Oscar Freire e subiu a Rua Augusta em ritmo de festa, feliz e orgulhosa, humanizando o engarrafamento de quem descia num coro bem-humorado de “Não fique aí parado! Vem pedalar pelado!” ou “Carro parado é coisa do passado! A moda agora é pedalar pelado!”.

A população nas ruas de São Paulo saudou a massa em festa durante todo o trajeto. A cidade, a Avenida Paulista, já acostumadas com a gigantesca parada do Orgulho GLBT, sentiram a alegria de ver o desfile das bicicletas e seus ciclistas nus e seminus, a despeito das leis antiquadas que (ainda) vigoram nesse país.

Mas podem se preparar, a festa será ainda maior em 2009.

Assinado,

Participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo 2008 (World Naked Bike Ride São Paulo 2008 )

tudo à minha volta são reclames. desejos vãos, e só.

– “Putz, até nas catracas”, pensei. Mais uma surrealidade cotidiana: tinha que ver uma propaganda de chocolates nestlé quase inevitavelmente para pegar o metrô. É (mais) uma “taxa extra” pra ter o direito de usar o serviço (de transporte público). Cada dia fica mais difícil escapar, da publicidade e da “naturalização” de sua existência em tão larga escala.

Remexendo bibliografia da época de unb, dei de cara com um texto interessantíssimo do Jean Baudrillard, de 1968, que tratava exatamente disto, ah, que maravilha. Ou talvez não, haha…

Baudrillard começa: se desde a década de 40 já se sabe que uma publicidade tende a anular-se diante de outra de produto similar, ou por seus excessos, em termos de persuasão; e todo mundo sabe que propaganda está mentindo; porque, diabos, se gasta tanto com publicidade? Porque ela invade, implacável, os espaços públicos – cores e formas artificiais, mentiras vãs?

(porque não posso escolher NÃO VER imagens gritando e se oferecendo por todos os lados?, pergunto eu.)

É claro que temos mecanismos de resistência à publicidade, admite o autor: “a injunção e a persuasão levantam todas as espécies de contra-motivações e de resistências (racionais ou irracionais: reação à passividade, não querer ser “possuído”, reação à ênfase, à repetição do discurso, etc.), em suma, o discurso publicitário dissuade ao mesmo tempo que persuade e daí parece que o consumidor é, senão imunizado, pelo menos um usuário bastante livre da mensagem publicitária”.

Mas “a função explícita da publicidade não nos deve enganar”, logo adverte. Se o imperativo publicitário não nos persuade quanto a uma marca específica, seu indicativo tem função primordial para “melhor impor a ordem real de produção e exploração”. As marcas, as imagens, são álibis no processo no qual se desenvolve uma “confusa operação de integração”, da pessoa à sociedade, enfim.

Assim, se resistimos, por um lado, ao imperativo publicitário, por outro aceitamos passivamente sua existência, como produto (também a ser consumido) e como, pode-se dizer, “modelo de realidade”, “evidência” de uma cultura tal, artificial, claro e, ao contrário do que alardeia, para muito poucos.

“É nesta medida que “acreditamos” nela; o que nela consumimos é o luxo de uma sociedade que se dá a ver como instância distribuidora de bens que se “ultrapassa” numa cultura. Recebemos ao mesmo tempo instância [a publicidade em si] e imagem”.

Funciona aí a lógica da fábula e da adesão, que “regride” o consumidor à infância. Baudrillard cita o Papai Noel para explicar: trata-se de uma fábula pra racionalizar e preservar na segunda infância a “relação miraculosa de gratificação pelos pais (mais precisamente pela mãe) que caracterizara a primeira infância”. A criança “se comporta” pra ganhar presentes no Natal, e os pais sustentam a estória. De maneira similar, “a publicidade serve para racionalizar a compra que, de todo modo, precede ou ultrapassa os motivos racionais. Sem acreditar neste produto, acredito, porém, na publicidade que quer me fazer crer”.

Ela adquire um caráter maternal, e nos entregamos diante de sua aparência. Somos convencidos/as de que apenas nos informam do que é bom pra nós e nos dão a oportunidade de escolher este sim e aquele não: “O indivíduo é sensível à temática latente de proteção e de gratificação, ao cuidado que “se” tem de solicitá-lo e persuadi-lo, ao signo, ilegível à consciência, de em alguma parte existir uma instância (no caso, social, que remete diretamente à imagem materna) que aceita informá-lo sobre seus próprios desejos, adverti-los e racionalizá-los a seus próprios olhos”.

Acaba que este jogo se demonstra interessante para as duas partes, e, portanto, não há resistência. Pelo contrário, quer-se fazer parte deste mundo maravilhoso (ainda que de imagens vazias).

 

Gratificação e repressão

Assim, diz Baudrillard, devemos ficar de olhos abertos ao verdadeiro imperativo da publicidade: descontextualizado, fora do processo histórico, o produto torna-se mero objeto, imagem, de modo a manter longe qualquer risco de subversão desta “miraculosa integração: este objeto, o senhor não o comprou, o senhor sim emitiu o seu desejo e todos os engenheiros, técnicos, etc. com ele o gratificaram”.

A dissociação entre trabalho e produto do trabalho, típica da sociedade industrial (assim como aquela entre o luxo – de poucos – e a exploração – de muitos), se completa através da publicidade. “Ao mesmo tempo que dissocia, no mesmo indivíduo, produtor e consumidor, graças à abstração de um sistema muito diferenciado de objetos, a publicidade se afana, em sentido inverso, em recriar uma confusão infantil entre o objeto e o desejo do objeto, em retornar o consumidor ao estágio em que a criança confunde sua mãe com o que ela lhe dá”.

Maravilha, não?… O mundo mágico da publicidade esconde a ordem real de produção e exploração por detrás das imagens, cada dia mais lindas e irreais. “Quando a publicidade em substância lhe propõe: “a sociedade adapta-se totalmente a você, integre-se totalmente nela”, é claro que a reciprocidade é falsificada: é uma instância imaginária que se adapta a você, enquanto que, em troca, você se adapta a uma ordem bem real. Através da poltrona “que se adapta às formas do seu corpo”, você esposa e se responsabiliza por toda a ordem técnica e política da sociedade. A sociedade se faz maternal para que melhor se preserve uma ordem de coerção”.

A idéia é essa: discurso único, todos/as “desejam” as mesmas coisas (com sua devida segmentação, pra dar aquela impressão de “eu escolhi”, “foi feito pra mim”). As ideologias, a crítica, são coisa de gente chata e mal-humorada que só sabe reclamar da vida – ou incompetente para “vencer”. (Se você for mulher, inda corre o sério risco de ouvir que é “mal-amada”).

Melhor pra quem está por cima: “enquanto que a integração moral e política não se exercia sem problemas (precisava lançar mão de repressão aberta), as novas técnicas economizam a repressão: o consumidor interioriza, no próprio movimento do consumo, as instâncias sociais e suas normas”.

A ponto de achar bacana fazer “publicidade gratuita” para marcas de roupas, artigos esportivos, etc., estampando suas logos enooormes por aí, como símbolo de algum status… E não compreender, no meio de tanta fragmentação, que desigualdade social, consumismo individualista, destruição ambiental, violência e degradação urbana estão inexoravelmente interligados.

 

Imagens, simulacros

É preciso perceber a relevância do papel das imagens e sua leitura no processo. Embora álibis, de inocentes nada têm. Não é difícil reparar que informação sobre o produto, mesmo, as propagandas não oferecem. Nos falam antes de objetos, muito pouco (ou nada) elas dão de informações práticas. São legendas, estão aí para ser lidas, e “remetem aos objetos reais como a um mundo ausente”, de fantasia. São, portanto, simulacros: já perderam seu referencial de realidade.

Nas imagens, o sanduíche, a roupa, a mulher, são “melhores”, mais “bonitos” e claro, desejáveis que na vida real. “A imagem cria um vazio, visa a uma ausência. Por isso é “evocadora”. Mas é um subterfúgio. (…) Ela engana, sua função é mostrar e enganar. O olhar é presunção de contato, a imagem e sua leitura são presunção de posse. A publicidade assim não oferece nem uma satisfação alucinatória, nem uma mediação prática para o mundo: a atitude que suscita é a de veleidade enganada – empresa inacabada, surgir contínuo, auroras de objetos, auroras de desejos.”

Compramos uma imagem, mas recebemos um produto que não é aquilo tudo, afinal… daí surge a frustração. No entanto, a propaganda continua dizendo (pra nós e pr’aqueles a quem devemos fazer inveja) que, sim, você é isto ou aquilo por TER tal produto. E logo surge outro, e outro, e outro, “melhor ainda”, oh, como posso viver sem isso?

“Não é mecanicamente que a publicidade veicula os valores desta sociedade, é, mais sutilmente, por sua função ambígua de presunção – algo entre a posse e a ausência de posse, ao mesmo tempo designação e prova de ausência – que o signo publicitário “faz passar” a ordem social em sua dupla determinação de gratificação e repressão”. “As duas vertentes inseparáveis da integração”, nas palavras Baudrillard.

É tudo tão natural: nós merecemos tal produto por nossos esforços em manter a “máquina” funcionando como tal. Ah, não pode comprar? Então você não está cumprindo com o seu dever! Ora, ora, mas sempre está em tempo! TRABALHE MAIS! Ou ainda: FAÇA DÍVIDAS! A escravidão moderna tem gosto de quero mais.

“Profusão de liberdade, contudo imaginária, contínua orgia mental, contudo orquestrada, regressão dirigida em que todas as perversidades são resolvidas em favor da ordem: se, na sociedade de consumo, a gratificação é imensa, a repressão também é enorme; recebemo-las conjuntamente na imagem e no discurso publicitários, que fazem o princípio repressivo da realidade atuar no próprio princípio do prazer”.

Passaram-se 40 anos da publicação deste texto. O próprio Baudrillard aprofundou os conceitos esboçados aqui, a certo ponto deixou de ser marxista pra se dizer “independente”, se é que isso é possível. E a análise, continua atual…

E viva a publicidade brasileira, uma das melhores do mundo!

Será que é porque ela é auto-regulamentada?

E, como para as grandes corporações de “notícias”, regulamentação externa é censura?

 

mais sobre o Baudrillard aqui e aqui.

mais sobre a publicidade: panóptico.

referências:

Baudrillard, Jean. “Significação na Publicidade”, in Teoria da Cultura de Massa, Luiz Costa Lima (org.), 1969.

título retirado de versos de “Mundo dos Negócios”, do Zeca Baleiro, em PetShopMundoCão, 2002.

quadrinhos dos Malvados do André Dahmer.

 

pelos muros mundo afora

Não se sabe quem é (ou são) Banksy. O mercado de celebridades, sedento, especula que seja um rapaz de Bristol (UK), 30 e poucos anos e aposta num nome, que não vem ao caso. Parece ser difícil, para alguns, lidar com uma profusão imagética tão provocativa e sensível espalhada pelos muros da(s) cidade(s), que invade museus e até zoológicos* (!)… não há um rosto a ser apropriado, replicado à exaustão…

Reza a lenda que os primeiros graffitis assinados por Banksy datam de 2001, em Bristol. Sua técnica? Em um dos 3 livros auto-publicados recheados de fotos de seus graffitis, o moço revela que teve uma péssima experiência com a polícia londrina e logo percebeu que precisava ser mais veloz: daí, o stencil.

As imagens de todo tamanho interagem com a cidade e seus moradores, escancaram contradições e hipocrisias, desanuviam os olhares. Simples e direto – sem falar no aguçado senso de humor – ele mira do consumismo à guerra, da destruição ambiental à opressão em nome da “liberdade”, da fome aos gordinhos subnutridos. Sabe que tudo está interligado.

A cidade, ocupada por inúmeras “bombas mentais”, dialoga com quem passa, provoca, por vezes clama que façamos o mesmo: resgatemos este espaço público, coletivo, de lazer e reivindicação. Nossas cidades encontram-se degradadas, excludentes, retalhadas em grades, muros e vidros fechados, abarrotadas de máquinas a motor que nem tanto andam, nem deixam respirar.

E a grande questão que se nos coloca é: não “é assim mesmo”. Não tem que ser. Sim, claro, há outras possibilidades e explicações e maneiras de ser e atuar. É preciso fazê-las ver e ouvir por aí. Mas, se os meios de comunicação e expressão “tradicionais” ignoram tais mensagens, convenhamos, deve haver poucos lugares melhores para elas que os mesmos muros erigidos por toda a cidade para separar e excluir…

“Vândalo!”, esbravejam alguns. “Genial!”, riem-se outros. Para o desespero daqueles, muitos dos graffitis de Banksy conquistam apoio popular e, não raro, geram mobilização para que a tinta branca e higiênica não os censure.

O campo de batalha de Banksy é amplo. O que começou como brincadeira rendeu toda uma série de “obras-primas vandalizadas”, e, pra num ficar barato, inseridas em alguns dos mais importantes museus do mundo. Muitas passaram despercebidas por dias… Tudo devidamente registrado em vídeo, disponível no sítio http://www.banksy.co.uk. Em alguns casos, como do Tate Museum de Londres, as obras foram incorporadas ao acervo. Terá saído o tiro pela culatra?

É possível, sim, encontrar (e comprar a preços módicos) “Banksys” em galerias alternativas, em suas poucas exposições relâmpago. Mas só se você não tiver problemas em dividir a sala com duas centenas de ratos vivos e soltos (rola uma identificação especial com estes bichos subterrâneos, hehe). Ah, claro, as famosas casas de leilão britânicas conseguem fazer um dinheiro extra às suas custas. “Não acredito que vocês, seus idiotas, ainda comprem esta merda”, respondeu na capa de seu sítio.

Não ter um rosto, como Banksy, a mim demonstra coerência. Ficam as imagens que realmente interessam. Afinal, imagens, idéias e atitudes podem ser muito mais perigosas que as armas de fogo.

para saber e ver mais:

www.banksy.co.uk

www.aots.co.uk

(todas as imagens foram publicadas originalmente nestes endereços)

*tudo começou no zoo de Londres. o cara invadiu a área dos elefantes e grafitou num balão tipo pensamento de quadrinhos:

“eu quero sair daqui. este lugar é muito frio. cheira mal. chato, chato, chato”

(estas duas) são do muro que Israel insiste em erguer na cisjordânia (Palestina).



fazendo a cabeça…

“Tenho lido Whitman, sabe o que ele diz, Cheer up slaves, and horrify foreign despots, ele quer dizer que a atitude para o Bardo, o bardo zen-lunático dos antigos caminhos do deserto, vê a coisa toda como um mundo cheio de andarilhos de mochilas nas costas, vagabundos do dharma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de tv, carros, pelo menos os carros novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorantes e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana, todos eles aprisionados em um sistema de trabalho, produção, consumo, trabalho, produção, consumo, tenho a visão de uma grande revolução de mochilas, milhares ou até mesmo milhões de jovens americanos vagando por aí com mochilas nas costas, subindo montanhas pra rezar, fazendo crianças rirem e deixando os velhos contentes, deixando meninas alegres e moças ainda mais alegres, todos esses zen-lunáticos que ficam aí escrevendo poemas que aparecem na cabeça sem razão nenhuma e também por serem gentis e também por atos estranhos inesperados vivem proporcionando visões de liberdade para todo mundo e todas as criaturas vivas”

Os vagabundos iluminados, Jack Kerouac, 1958.

 

“Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.

Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.

O último trovador morreu em 1914.

Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

 

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.

Se quer fumar um charuto aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem-fio.

Não precisa estômago para digestão.

 

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.

Mas até lá, felizmente, estarei morto.

 

Os homens não melhoram e matam-se como percevejos.

Os percevejos heróicos renascem.

 

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)”

O Sobrevivente. Carlos Drummond de Andrade, 1930

 

“abastecer um aparelho produtivo sem ao mesmo tempo modificá-lo, na medida do possível, seria um procedimento altamente questionável mesmo que os materiais fornecidos tivessem uma aparência revolucionária. Sabemos, e isso foi abundantemente demonstrado nos últimos dez anos, na Alemanha, que o aparelho burguês de produção e publicação pode assimilar uma surpreendente quantidade de temas revolucionários, até mesmo propagá-los, sem colocar seriamente em risco sua própria existência e a existência das classes que o controlam. Isso continuará sendo verdade enquanto esse aparelho for abastecido por escritores rotineiros, ainda que socialistas.

(…)

Pense-se no dadaísmo. A força revolucionária do dadaísmo estava em sua capacidade de submeter a arte à prova da autenticidade. Os autores compunham naturezas-mortas com o auxílio de bilhetes, carretéis, pontas de cigarro, aos quais se associavam elementos pictóricos. O conjunto era posto numa moldura. O objeto era então exposto ao público: vejam, a moldura faz explodir o tempo; o menor fragmento autêntico da vida diária diz mais que a pintura. Do mesmo modo, a impressão digital ensangüentada de um assassino, na página de um livro, diz mais que o texto. A fotomontagem preservou muitos desses conteúdos revolucionários. Basta pensar nos trabalhos de John Heartfield, cuja técnica transformou as capas de livros em instrumentos políticos. Mas acompanhemos um pouco mais longe a trajetória da fotografia. Que vemos? Ela se torna cada vez mais matizada, cada vez mais moderna, e o resultado é que ela não pode mais fotografar cortiços ou montes de lixo sem transfigura-los. Ela não pode dizer, de uma barragem ou de uma fábrica de cabos, outra coisa senão: o mundo é belo. Este é o título do conhecido livro de imagens de Renger-Patsch, que representa a fotografia da “Nova Objetividade” em seu apogeu. Em outras palavras, ela conseguiu transformar a própria miséria em objeto de fruição, ao captá-la segundo os modismos mais aperfeiçoados. Porque, se uma das funções econômicas da fotografia é alimentar as massas com certos conteúdos que antes ela estava proibida de consumir – a primavera, personalidades iminentes, países estrangeiros – através de uma elaboração baseada na moda, uma de suas funções políticas é a de renovar, de dentro, o mundo como ele é – em outras palavras, segundo os critérios da moda.”

O autor como produtor. Walter Benjamin, 1934.

 

“Se o conteúdo da mídia radical alternativa sugere que a estrutura econômica ou política necessita urgentemente de mudanças, embora seja bem claro que, no presente, tais mudanças são inimagináveis, então o papel dessa mídia é manter viva a visão de como as coisas poderiam ser, até um momento na história em que sejam, de fato, exeqüíveis”

Mídia Radical: Rebeldia nas Comunicações e Movimentos Sociais. John Downing, 2001.

 

“Uma nova força humana, que a estrutura existente não poderá dominar, cresce dia a dia com o irresistível desenvolvimento técnico e a insatisfação de seus usos possíveis em nossa vida social carente de sentido.

(…)

Na sociedade hoje dominante, que produz massivamente tristes pseudo-jogos da não-participação, uma atividade artística verdadeira é forçosamente classificada no campo da criminalidade. É semiclandestina. Surge na forma de escândalo.

(…)

propomos uma organização autônoma dos produtores da nova cultura, independentes das organizações políticas e sindicais que existem neste momento, pois questionamos a capacidade delas de organizar outra coisa que a manutenção do que existe.

(…)

Quais deverão ser os principais caracteres da nova cultura e como ela se compararia com a arte antiga?

Contra o espetáculo reinante, a cultura situacionista realizada introduz a participação total.

Contra a arte conservada, é um organização do momento vivido diretamente.

Contra a arte parcelar, será uma prática global que se dirija ao mesmo tempo sobre todos os elementos utilizados. Tende naturalmente a uma produção coletiva e, sem dúvida, anônima (pelo menos na medida em que, ao não estarem as obras armazenadas como mercadorias, tal cultura não estará dominada pela necessidade de deixar traços). Suas experiências se propõem, como mínimo, uma revolução do comportamento e um urbanismo unitário, dinâmico, suscetível de estender-se ao planeta inteiro; e de ser prolongado seguidamente a todos os planetas habitáveis.

Contra a arte unilateral, a cultura situacionista será uma arte do diálogo, uma arte da interação. Os artistas – com toda a cultura visível – chegaram a estar completamente separados da sociedade, do mesmo modo que estão separados entre si pela concorrência. Mas antes inclusive deste corredor sem saída do capitalismo, a arte era essencialmente unilateral, sem resposta. Superará esta era fechada do primitivismo por uma comunicação completa.

Ao ser, em um estágio avançado, todo mundo artista, isto é, inseparavelmente produtor-consumidor de uma criação cultural, se assistirá a dissolução rápida do critério linear de novidade. Ao se tornar todo mundo, por assim dizer, situacionista, se verá a uma inflação multidimensional de tendências, de experiências, de “escolas” radicalmente diferentes e isto não já sucessivamente, mas simultaneamente.

Inauguramos agora o que será, historicamente, o últimos dos ofícios. O papel de situacionista, de amador-profissional, de anti-especialista, é ainda uma especialização até o momento da abundância econômica e mental no qual todo mundo se tornará “artista”, num sentido que os artistas não alcançaram: a construção da própria vida. Entretanto, o último ofício da história é tão próximo da sociedade sem divisão permanente do trabalho, que quando aparece, seu estado de ofício foi negado.”

Manifesto Situacionista. Internationalle Situationniste nº 4, 1960. na íntegra: Biblioteca Virtual Revolucionária

a rede globo – e coleguinhas – é que deveriam ter medo de nós

Foi por isso que espernearam tanto as grandes (?) mídias quando a rctv perdeu sua concessão na Venezuela.

apesar de termos na constituição brasileira mecanismos que permitiriam a não-renovação de todas as concessões públicas (que deveriam servir ao povo e nossos interesses, cultura, diversidade, desafios, debates, contrastes…), nada deve impedir que sejam renovadas de maneira “automática” (!), amanhã.

ah, se aqui houvesse alguma chance de ver com o cu na mão a globo ou record ou band ou similares, sempre a serviço de escusos interesses de uma minoria gananciosa e fútil. e amedrontada, pode-se notar já anseios golpistas e fascistas.

as mesmas que chamam responsabilização e regulementação de censura, e dizem que podem se auto-regulamentar muito bem, obrigado. mais uma vez por seus próprios interesses, claro, embora revestidos de simulacros e marketing que juram o contrário. putz, nos fazem de idiotas e a gente ainda acha bom e agradece.

mas, embora isso não seja “notícia” para elas, amanhã vai ter manifestação em várias cidades do Brasil contra todo este absurdo e toda complacência do governo Lula com as mesmas mídias que, mais de uma vez, atentaram numa baixeza sintomática contra ele. tá com medo? os donos dessas mídias é que deveriam ter de nós.

em São Paulo, a partir das 12h na Av. Paulista, em frente ao prédio da Gazeta.

mais em www.quemmandaevoce.org.br

Campanha
O QUE É
A Coordenação dos Movimentos Sociais, em conjunto com diversas entidades engajadas no debate de democratização da comunicação, decidiu pela realização de uma Campanha Nacional por Democracia e Transparência nas Concessões Públicas de Rádio e TV. A campanha pretende sensibilizar a sociedade em relação ao caráter público das concessões, denunciando os absurdos da legislação e o descumprimento das poucas regras que já há, buscando intervir pela transformação da legislação.

Manifestações estão sendo realizadas em todo o país para o lançamento da campanha. Este é um momento propício para tomarmos as ruas e compartilharmos com a sociedade questões que são parte de uma luta mais ampla e permanente pela democratização dos meios de comunicação.

SAIBA MAIS – CENÁRIO DAS CONCESSÕES [Como são as concessões de rádio e TV no Brasil]

AÇÕES PREVISTAS

  1. Mobilizações de lançamento da campanha no dia 5 de outubro
  2. Entrega dos contratos populares às emissoras
  3. Julgamentos populares das concessões
  4. Medidas jurídicas contra as irregularidades
  5. Audiências públicas sobre o tema em Brasília e nos estados
  6. Atividades durante a Semana de Democratização da Comunicação, de 15 a 21 de outubro.
  7. publicação de material de referência

 

ORGANIZAÇÕES PARTICIPANTES

Coordenação dos Movimentos Sociais (CUT, MST, CMP, UNE, ABI, CNBB, Grito dos Excluídos, Marcha Mundial das Mulheres, UBM, UBES, CONEM, MTD, MTST, CONAM, UNMP, Ação Cidadania, CEBRAPAZ, Abraço, CGTB), ABGLT, Abong, Intervozes, Enecos, Campanha pela Ética na TV, Articulação Mulher&Mídia, Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, Fitert, Observatório da Mulher, Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), Conselho Federal de Psicologia, Comunicativistas, Coletivo Epidemia e Artigo XIX.