pelos muros mundo afora

Não se sabe quem é (ou são) Banksy. O mercado de celebridades, sedento, especula que seja um rapaz de Bristol (UK), 30 e poucos anos e aposta num nome, que não vem ao caso. Parece ser difícil, para alguns, lidar com uma profusão imagética tão provocativa e sensível espalhada pelos muros da(s) cidade(s), que invade museus e até zoológicos* (!)… não há um rosto a ser apropriado, replicado à exaustão…

Reza a lenda que os primeiros graffitis assinados por Banksy datam de 2001, em Bristol. Sua técnica? Em um dos 3 livros auto-publicados recheados de fotos de seus graffitis, o moço revela que teve uma péssima experiência com a polícia londrina e logo percebeu que precisava ser mais veloz: daí, o stencil.

As imagens de todo tamanho interagem com a cidade e seus moradores, escancaram contradições e hipocrisias, desanuviam os olhares. Simples e direto – sem falar no aguçado senso de humor – ele mira do consumismo à guerra, da destruição ambiental à opressão em nome da “liberdade”, da fome aos gordinhos subnutridos. Sabe que tudo está interligado.

A cidade, ocupada por inúmeras “bombas mentais”, dialoga com quem passa, provoca, por vezes clama que façamos o mesmo: resgatemos este espaço público, coletivo, de lazer e reivindicação. Nossas cidades encontram-se degradadas, excludentes, retalhadas em grades, muros e vidros fechados, abarrotadas de máquinas a motor que nem tanto andam, nem deixam respirar.

E a grande questão que se nos coloca é: não “é assim mesmo”. Não tem que ser. Sim, claro, há outras possibilidades e explicações e maneiras de ser e atuar. É preciso fazê-las ver e ouvir por aí. Mas, se os meios de comunicação e expressão “tradicionais” ignoram tais mensagens, convenhamos, deve haver poucos lugares melhores para elas que os mesmos muros erigidos por toda a cidade para separar e excluir…

“Vândalo!”, esbravejam alguns. “Genial!”, riem-se outros. Para o desespero daqueles, muitos dos graffitis de Banksy conquistam apoio popular e, não raro, geram mobilização para que a tinta branca e higiênica não os censure.

O campo de batalha de Banksy é amplo. O que começou como brincadeira rendeu toda uma série de “obras-primas vandalizadas”, e, pra num ficar barato, inseridas em alguns dos mais importantes museus do mundo. Muitas passaram despercebidas por dias… Tudo devidamente registrado em vídeo, disponível no sítio http://www.banksy.co.uk. Em alguns casos, como do Tate Museum de Londres, as obras foram incorporadas ao acervo. Terá saído o tiro pela culatra?

É possível, sim, encontrar (e comprar a preços módicos) “Banksys” em galerias alternativas, em suas poucas exposições relâmpago. Mas só se você não tiver problemas em dividir a sala com duas centenas de ratos vivos e soltos (rola uma identificação especial com estes bichos subterrâneos, hehe). Ah, claro, as famosas casas de leilão britânicas conseguem fazer um dinheiro extra às suas custas. “Não acredito que vocês, seus idiotas, ainda comprem esta merda”, respondeu na capa de seu sítio.

Não ter um rosto, como Banksy, a mim demonstra coerência. Ficam as imagens que realmente interessam. Afinal, imagens, idéias e atitudes podem ser muito mais perigosas que as armas de fogo.

para saber e ver mais:

www.banksy.co.uk

www.aots.co.uk

(todas as imagens foram publicadas originalmente nestes endereços)

*tudo começou no zoo de Londres. o cara invadiu a área dos elefantes e grafitou num balão tipo pensamento de quadrinhos:

“eu quero sair daqui. este lugar é muito frio. cheira mal. chato, chato, chato”

(estas duas) são do muro que Israel insiste em erguer na cisjordânia (Palestina).



fazendo a cabeça…

“Tenho lido Whitman, sabe o que ele diz, Cheer up slaves, and horrify foreign despots, ele quer dizer que a atitude para o Bardo, o bardo zen-lunático dos antigos caminhos do deserto, vê a coisa toda como um mundo cheio de andarilhos de mochilas nas costas, vagabundos do dharma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de tv, carros, pelo menos os carros novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorantes e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana, todos eles aprisionados em um sistema de trabalho, produção, consumo, trabalho, produção, consumo, tenho a visão de uma grande revolução de mochilas, milhares ou até mesmo milhões de jovens americanos vagando por aí com mochilas nas costas, subindo montanhas pra rezar, fazendo crianças rirem e deixando os velhos contentes, deixando meninas alegres e moças ainda mais alegres, todos esses zen-lunáticos que ficam aí escrevendo poemas que aparecem na cabeça sem razão nenhuma e também por serem gentis e também por atos estranhos inesperados vivem proporcionando visões de liberdade para todo mundo e todas as criaturas vivas”

Os vagabundos iluminados, Jack Kerouac, 1958.

 

“Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.

Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.

O último trovador morreu em 1914.

Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

 

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.

Se quer fumar um charuto aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem-fio.

Não precisa estômago para digestão.

 

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.

Mas até lá, felizmente, estarei morto.

 

Os homens não melhoram e matam-se como percevejos.

Os percevejos heróicos renascem.

 

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)”

O Sobrevivente. Carlos Drummond de Andrade, 1930

 

“abastecer um aparelho produtivo sem ao mesmo tempo modificá-lo, na medida do possível, seria um procedimento altamente questionável mesmo que os materiais fornecidos tivessem uma aparência revolucionária. Sabemos, e isso foi abundantemente demonstrado nos últimos dez anos, na Alemanha, que o aparelho burguês de produção e publicação pode assimilar uma surpreendente quantidade de temas revolucionários, até mesmo propagá-los, sem colocar seriamente em risco sua própria existência e a existência das classes que o controlam. Isso continuará sendo verdade enquanto esse aparelho for abastecido por escritores rotineiros, ainda que socialistas.

(…)

Pense-se no dadaísmo. A força revolucionária do dadaísmo estava em sua capacidade de submeter a arte à prova da autenticidade. Os autores compunham naturezas-mortas com o auxílio de bilhetes, carretéis, pontas de cigarro, aos quais se associavam elementos pictóricos. O conjunto era posto numa moldura. O objeto era então exposto ao público: vejam, a moldura faz explodir o tempo; o menor fragmento autêntico da vida diária diz mais que a pintura. Do mesmo modo, a impressão digital ensangüentada de um assassino, na página de um livro, diz mais que o texto. A fotomontagem preservou muitos desses conteúdos revolucionários. Basta pensar nos trabalhos de John Heartfield, cuja técnica transformou as capas de livros em instrumentos políticos. Mas acompanhemos um pouco mais longe a trajetória da fotografia. Que vemos? Ela se torna cada vez mais matizada, cada vez mais moderna, e o resultado é que ela não pode mais fotografar cortiços ou montes de lixo sem transfigura-los. Ela não pode dizer, de uma barragem ou de uma fábrica de cabos, outra coisa senão: o mundo é belo. Este é o título do conhecido livro de imagens de Renger-Patsch, que representa a fotografia da “Nova Objetividade” em seu apogeu. Em outras palavras, ela conseguiu transformar a própria miséria em objeto de fruição, ao captá-la segundo os modismos mais aperfeiçoados. Porque, se uma das funções econômicas da fotografia é alimentar as massas com certos conteúdos que antes ela estava proibida de consumir – a primavera, personalidades iminentes, países estrangeiros – através de uma elaboração baseada na moda, uma de suas funções políticas é a de renovar, de dentro, o mundo como ele é – em outras palavras, segundo os critérios da moda.”

O autor como produtor. Walter Benjamin, 1934.

 

“Se o conteúdo da mídia radical alternativa sugere que a estrutura econômica ou política necessita urgentemente de mudanças, embora seja bem claro que, no presente, tais mudanças são inimagináveis, então o papel dessa mídia é manter viva a visão de como as coisas poderiam ser, até um momento na história em que sejam, de fato, exeqüíveis”

Mídia Radical: Rebeldia nas Comunicações e Movimentos Sociais. John Downing, 2001.

 

“Uma nova força humana, que a estrutura existente não poderá dominar, cresce dia a dia com o irresistível desenvolvimento técnico e a insatisfação de seus usos possíveis em nossa vida social carente de sentido.

(…)

Na sociedade hoje dominante, que produz massivamente tristes pseudo-jogos da não-participação, uma atividade artística verdadeira é forçosamente classificada no campo da criminalidade. É semiclandestina. Surge na forma de escândalo.

(…)

propomos uma organização autônoma dos produtores da nova cultura, independentes das organizações políticas e sindicais que existem neste momento, pois questionamos a capacidade delas de organizar outra coisa que a manutenção do que existe.

(…)

Quais deverão ser os principais caracteres da nova cultura e como ela se compararia com a arte antiga?

Contra o espetáculo reinante, a cultura situacionista realizada introduz a participação total.

Contra a arte conservada, é um organização do momento vivido diretamente.

Contra a arte parcelar, será uma prática global que se dirija ao mesmo tempo sobre todos os elementos utilizados. Tende naturalmente a uma produção coletiva e, sem dúvida, anônima (pelo menos na medida em que, ao não estarem as obras armazenadas como mercadorias, tal cultura não estará dominada pela necessidade de deixar traços). Suas experiências se propõem, como mínimo, uma revolução do comportamento e um urbanismo unitário, dinâmico, suscetível de estender-se ao planeta inteiro; e de ser prolongado seguidamente a todos os planetas habitáveis.

Contra a arte unilateral, a cultura situacionista será uma arte do diálogo, uma arte da interação. Os artistas – com toda a cultura visível – chegaram a estar completamente separados da sociedade, do mesmo modo que estão separados entre si pela concorrência. Mas antes inclusive deste corredor sem saída do capitalismo, a arte era essencialmente unilateral, sem resposta. Superará esta era fechada do primitivismo por uma comunicação completa.

Ao ser, em um estágio avançado, todo mundo artista, isto é, inseparavelmente produtor-consumidor de uma criação cultural, se assistirá a dissolução rápida do critério linear de novidade. Ao se tornar todo mundo, por assim dizer, situacionista, se verá a uma inflação multidimensional de tendências, de experiências, de “escolas” radicalmente diferentes e isto não já sucessivamente, mas simultaneamente.

Inauguramos agora o que será, historicamente, o últimos dos ofícios. O papel de situacionista, de amador-profissional, de anti-especialista, é ainda uma especialização até o momento da abundância econômica e mental no qual todo mundo se tornará “artista”, num sentido que os artistas não alcançaram: a construção da própria vida. Entretanto, o último ofício da história é tão próximo da sociedade sem divisão permanente do trabalho, que quando aparece, seu estado de ofício foi negado.”

Manifesto Situacionista. Internationalle Situationniste nº 4, 1960. na íntegra: Biblioteca Virtual Revolucionária

a rede globo – e coleguinhas – é que deveriam ter medo de nós

Foi por isso que espernearam tanto as grandes (?) mídias quando a rctv perdeu sua concessão na Venezuela.

apesar de termos na constituição brasileira mecanismos que permitiriam a não-renovação de todas as concessões públicas (que deveriam servir ao povo e nossos interesses, cultura, diversidade, desafios, debates, contrastes…), nada deve impedir que sejam renovadas de maneira “automática” (!), amanhã.

ah, se aqui houvesse alguma chance de ver com o cu na mão a globo ou record ou band ou similares, sempre a serviço de escusos interesses de uma minoria gananciosa e fútil. e amedrontada, pode-se notar já anseios golpistas e fascistas.

as mesmas que chamam responsabilização e regulementação de censura, e dizem que podem se auto-regulamentar muito bem, obrigado. mais uma vez por seus próprios interesses, claro, embora revestidos de simulacros e marketing que juram o contrário. putz, nos fazem de idiotas e a gente ainda acha bom e agradece.

mas, embora isso não seja “notícia” para elas, amanhã vai ter manifestação em várias cidades do Brasil contra todo este absurdo e toda complacência do governo Lula com as mesmas mídias que, mais de uma vez, atentaram numa baixeza sintomática contra ele. tá com medo? os donos dessas mídias é que deveriam ter de nós.

em São Paulo, a partir das 12h na Av. Paulista, em frente ao prédio da Gazeta.

mais em www.quemmandaevoce.org.br

Campanha
O QUE É
A Coordenação dos Movimentos Sociais, em conjunto com diversas entidades engajadas no debate de democratização da comunicação, decidiu pela realização de uma Campanha Nacional por Democracia e Transparência nas Concessões Públicas de Rádio e TV. A campanha pretende sensibilizar a sociedade em relação ao caráter público das concessões, denunciando os absurdos da legislação e o descumprimento das poucas regras que já há, buscando intervir pela transformação da legislação.

Manifestações estão sendo realizadas em todo o país para o lançamento da campanha. Este é um momento propício para tomarmos as ruas e compartilharmos com a sociedade questões que são parte de uma luta mais ampla e permanente pela democratização dos meios de comunicação.

SAIBA MAIS – CENÁRIO DAS CONCESSÕES [Como são as concessões de rádio e TV no Brasil]

AÇÕES PREVISTAS

  1. Mobilizações de lançamento da campanha no dia 5 de outubro
  2. Entrega dos contratos populares às emissoras
  3. Julgamentos populares das concessões
  4. Medidas jurídicas contra as irregularidades
  5. Audiências públicas sobre o tema em Brasília e nos estados
  6. Atividades durante a Semana de Democratização da Comunicação, de 15 a 21 de outubro.
  7. publicação de material de referência

 

ORGANIZAÇÕES PARTICIPANTES

Coordenação dos Movimentos Sociais (CUT, MST, CMP, UNE, ABI, CNBB, Grito dos Excluídos, Marcha Mundial das Mulheres, UBM, UBES, CONEM, MTD, MTST, CONAM, UNMP, Ação Cidadania, CEBRAPAZ, Abraço, CGTB), ABGLT, Abong, Intervozes, Enecos, Campanha pela Ética na TV, Articulação Mulher&Mídia, Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, Fitert, Observatório da Mulher, Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), Conselho Federal de Psicologia, Comunicativistas, Coletivo Epidemia e Artigo XIX.